MUDANÇA DE PARADIGMA NA
EDUCAÇÃO MÉDICA
Davi Gonçalves
Professor de Medicina da
Escola Superior de Ciências da Saúde Secretaria de Estado
de Saúde do DF / FEPECS (Fundação de Estudo e Pesquisas
em Ciências da Saúde)
Educação: considerações preliminares
Os antigos gregos, ao se referirem à educação, usavam a palavra ’anatrofi (anatrofi): a nutrição para crescer - substantivo procedente do verbo ’anatrofein (anatrofein), que quer dizer alimentar-se; o prefixo ’ana_ (ana) dá a idéia de algo que se acrescenta, que se acentua, que se adiciona, enquanto o radical trofi (trofi) significa alimento, nutrição... Assim, nesta acepção, a educação é um tipo de alimento para o crescimento, e ela implica em fornecer alimentos próprios para o fazer crescer, como também uma assimilação própria (particular) e adequada do alimento (Solon SPANOUDIS apud CRITELLI ). Nas línguas neo-latinas e em outras línguas modernas a palavra educação derivou-se do latim educere (ex+ducere). Ducere é verbo, significando conduzir, levar, e ex é o prefixo com idéia de lugar significando de onde, para fora de, empregado da mesma forma que na palavra expor (pôr à vista, tirar do esconderijo, mostrar, pôr para fora); neste caso, educere seria conduzir algo ou alguém para outro lugar diferente daquele em que se encontrava originalmente (CRITELLI ). Para mim, dentro das linhas deste trabalho, o significado geral de educação parece encontrar-se na convergência do sentido grego com o sentido latino. Nesta convergência de conceitos não fica espaço para a concepção acumulativa da educação bancária; além disso, contempla-se o conceito da educação conscientizadora, ou problematizadora, ou crítica, que "considera os homens como seres em "devenir", como seres inacabados, incompletos em uma realidade igualmente inacabada..." (FREIRE ). Neste caso, a idéia de inacabamento dos homens (LAPASSADE ), e o caráter evolutivo da realidade exigem que a educação seja uma atividade contínua, na formação da consciência dos homens (FREIRE ), na formação e estruturação de seu ser, "y comprise", digo eu, sua formação profissional, neste caso, como médicos. Aplico aqui o disse William Osler, ao escrever aos docentes de medicina: "educação é um processo vitalício, e o que fazemos nós [docentes] é somente instilar princípios, conduzir o estudante no caminho certo, apresentar-lhe métodos, ensinar a ele como estudar, e como discernir, logo, o essencial do não-essencial".
.
Levando-se em conta tais
conceitos, e aplicando-os à educação médica,
ressalta-se:
-a necessidade de uma educação
médica voltada para os problemas reais de saúde do homem
na sociedade atual;
-a necessidade de reformulação
da educação médica com vistas a formar profissionais
capazes de atender contextualmente a esses problemas;
-a necessidade de busca
e utilização de uma metodologia de ensino-aprendizagem capaz
de reformular a educação médica tradicional de forma
competente, abrangente e permanente (formação continuada).
É aqui que surge,
então, como resposta a esses desafios as propostas pedagógicas
que aplicam a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL Problem Based
Learning).
Início do PBL na educação
médica
Nos Estados Unidos da América,
a Case Western Reserve University School of Medicine introduziu a abordagem
teórico-prática nos anos iniciais de ensino da medicina na
década de 1950. Mas a mudança marcante na educação
médica ocorrida nas Américas adveio da Universidade McMaster
(Canadá) nos anos 1960. No curso de Medicina dessa universidade
foi instituída a metodologia de ensino centrada no estudante, voltada
para a realidade, e baseada em problemas. Posteriormente várias
adaptações do modelo de McMaster foram adotadas por outras
universidades nos Estados Unidos (Harvard, Havaí, Novo México,
Michigan State, Bowman Gray, Rush, Tufts, Southern Illinois) e em outros
países (Austrália, Brasil, Chile, Egito, Filipinas, Grã-Bretanha,
Holanda, Hong-Kong, Indonésia, Malásia, Nigéria, Suécia,
Suíça, Taiwan e outros). Na América do Norte, a necessidade
da mudança foi ratificada pelo chamado relatório GPEP (General
Professional Education of the Physicians and College Preparation for Medicine
Report), publicado em 1989 sob o título "Physicians for the Twenty-First
Century". Esse relatório afirma que "para acompanhar as novas tecnologias
e informações científicas, os médicos precisam
permanentemente adquirir novos conhecimentos e aprender novas habilidades.
Portanto, uma educação profissional geral deve preparar os
estudantes de medicina para aprender continuamente ao longo de sua carreira
profissional, em vez de simplesmente fazê-los dominar os conhecimentos
e as técnicas do momento. Auto-formação ativa e independente
requer, entre outras qualidades, a habilidade de identificar, formular
e resolver problemas, compreender e usar conceitos e princípios
básicos bem como acessar e coletar dados com rigor e senso crítico"
.
Mesmo antes desse relatório,
a Universidade de McMaster já se preocupava com o assunto e começou
seus estudos de mudança de currículo em 1966; em 1969
admitiu a primeira turma de estudantes de Medicina em que aplicou
seu currículo inovador. Segundo Dr. John Evans, deão da escola
naquele ano, o foco de preocupação do grupo de planejamento
que elaborou os estudos era "manter-se distante da estrutura dos moldes
já padronizados, nos quais os conteúdos eram empurrados goela
abaixo dos estudantes, o que eles não retêm de forma alguma,
mas adotar um sistema no qual os estudantes sejam ativamente envolvidos
no processo de aprendizagem" . O resultado final foi o surgimento
do atual curso de Medicina da Universidade de McMaster, utilizando o programa
"Problem-Based Learning", com as seguintes características:
- ausência
de matérias caracterizadas como disciplinas;
- ênfase na solução
de problemas;
- abordagem integrada da
biologia humana.
Os pontos-chave do programa
são: análise de problemas de saúde como o método
principal de adquirir e aplicar conhecimentos; desenvolvimento de habilidades
de auto-formação vitalícia e independente no estudante;
e o uso de pequenos grupos tutoriais de estudos, com 5 ou 6 estudantes,
como núcleo educacional básico . A estrutura do currículo
consiste em uma série de Unidades ou Blocos [Módulos] interdisciplinares,
compreendendo também um último ano de internato rotativo
em clínicas. As habilidades clínicas, incluindo habilidades
de comunicação, são adquiridas paralela e integradamente
ao longo do curso.
Aplicação do PBL na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) da SES-DF
Longum iter est per præcepta,
breve et efficax per exempla
("Longo é o caminho da teoria, breve e eficaz o da prática")
- SÊNECA
No Brasil, a nível
de graduação , as faculdades de Medicina de Londrina e Marília
foram as pioneiras na aplicação do PBL à formação
médica, há 4 anos. As universidades de Santa Cruz (Bahia)
e de Roraima estão em fase de implantação dessa metodologia,
e a ESCS inicia seu curso médico já centrado no PBL. Foram
as essas escolas que inspiraram e assessoraram a introdução
do PBL na ESCS. Como ocorre nesses programas, o currículo do curso
não está fatiado em disciplinas nem é engessado. Ele
é considerado como um conjunto teórico-prático dinâmico,
constituído de módulos inter-relacionados que se integram
e se adaptam viva e continuamente conforme será mostrado.
Em setembro de 2001 tem
início o Curso de Medicina da Escola Superior de Ciências
da Saúde (ESCS) da SES-DF (Secretaria de Saúde do Governo
do Distrito Federal). "O planejamento ocorreu em três fases. A primeira
centrou-se em uma articulação da filosofia educacional da
escola e uma clara definição da filosofia determinante de
todas as decisões curriculares. Neste momento foram adotadas as
seguintes etapas: a) identificação de competências
exigidas ao graduado; b) o estabelecimento de convênios institucionais
com instituições que desenvolvem programas educacionais
similares; c) seleção e criação de meios de
treinamento; e d) seleção e capacitação dos
membros da Escola. A segunda fase consiste em articular as experiências
de aprendizagem nas três estratégias que se sobrepõem:
aprendizagem baseada em problemas, as habilidades e a interação
ensino-serviços-comunidade. A fase final, que é também
coerente com a filosofia da escola, é a da correção
dos rumos do curso através de um sistema de avaliação.
O currículo é visto como um processo dinâmico
que permite ajustamento contínuo".
O novo curso adota um currículo caracterizado por metodologia de ensino fundamentalmente centrada no estudante, baseada em problemas e orientada à comunidade, com ênfase na integração básico-clínica. Pretende-se a formação de profissionais que não privilegiem a doença, mas o doente, capazes de atuar na solução de problemas de saúde mais relevantes da comunidade, e que estejam comprometidos, ademais, com a promoção e recuperação da saúde e prevenção da doença com base em princípios éticos, humanísticos e sociais . Isso quer dizer que esta escola adota o PBL (Problem Based Learning) como metodologia de ensino-aprendizado. Conforme ocorre também em outras escolas, o programa consiste em "uma metodologia ativa de ensino-aprendizagem na qual o estudante explora problemas educacionais trabalhando em pequenos grupos" . Embora essa metodologia não seja uma invenção particular da ESCS, está claro, segue ela, entretanto, caminhos próprios.
Mudança de paradigma: em andamento
Para exemplificar a
estrutura e dinâmica desse novo paradigma, irei descrever alguns
aspectos de seu desenrolar. Grande parte do material a seguir foi apresentada
pelos consultores na UEL e da FAMEMA nas conferências de capacitação
dos docentes da ESCS-DF, no primeiro semestre de 2001. Outra parte decorreu
do esforço dos docentes da ESCS em aplicar a nova abordagem ao novo
curso do DF.
Dois aspectos a serem
notados no desenrolar desse programa, em comparação com os
programas tradicionais: a ênfase nas mudanças de foco na prática
médica e nas mudanças de foco no ensino médico. Neste
primeiro quadro, na coluna da esquerda estão os itens que são
valorizados na prática da educação médica tradicional.
Na coluna da esquerda, em itálico, estão os itens para os
quais são deslocados os novos enfoques formativos
Mudanças de foco na prática
DO INDIVÍDUO PARA
A COMUNIDADE
Da cura da doença
Para a preservação da saúde
Do cuidado episódico
Para o contínuo e compreensivo
Da abordagem individual
por um único médico Para a abordagem multiprofissional na
comunidade
Do paternalismo Para a autonomia
do paciente
Do sistema centralizado
hospitalar Para o enfoque do cuidado primário
Do cuidado ao paciente internado
Para o cuidado distribuído (casa, hospital-dia e cuidados intermediários
Do caso anedótico
Para a medicina baseada em evidências
Do médico como único
dono do saber Para a informação universalizada e democrática
No quadro abaixo é feita a comparação entre a mudança de foco no ensino médico, o tradicional (na coluna da esquerda) e o que está sendo proposto (na coluna da direita, em itálico).
Mudanças de foco no ensino médico
Do indivíduo Para
a comunidade
Da cura da doença
Para a preservação da saúde
Do cuidado episódico
Para o contínuo e compreensivo
Da abordagem individual
por um único médico Para a abordagem multiprofissional na
comunidade
Do paternalismo Para a autonomia
do aluno
Do sistema centralizado
hospitalar Para o enfoque do cuidado primário
Do cuidado ao paciente internado
Para o cuidado distribuído (casa, hospital dia e cuidados intermediários
Do caso anedótico
Para a medicina baseada em evidências
Do professor como único
dono do saber Para a informação universalizada e democrática
(internet)
O primeiro módulo
do curso de Medicina da ESCS Introdução ao Estudo
da Medicina apresenta os seguintes objetivos: 1) acolher os
estudantes no ambiente da escola; 2) apresentar o Curso de Medicina da
ESCS: metodologia de ensino-aprendizagem, semana-padrão, sistema
de avaliação, organização curricular; 3) apresentar
aspectos relevantes da história da Medicina e da educação
médica; 4) propiciar elementos introdutórios para o conhecimento
dos princípios éticos que regem a prática da medicina;
5) capacitar os estudantes para a utilização de ferramentas
básicas de informática em saúde;6) sensibilizar os
estudantes para a necessidade de desenvolver a capacidade de avaliação
crítica das informações científicas veiculadas
por revistas médicas e introduzir noções fundamentais
de delineamentos de estudos. As metodologias educacionais incluem a aprendizagem
baseada em problemas, palestras e atividades práticas que envolvem
capacitação para a adequada utilização da Biblioteca,
bem como para o acesso a informações por meio das bases locais
e remotas (INTERNET) e treinamento básico em informática
.
O sistema de avaliação
é dirigido às atividades discentes e docentes, às
unidades educacionais e aos estágios, ou seja, a todas as etapas
e atores do processo educacional. Este se baseia nos seguintes princípios:
1. Os métodos de avaliação devem ser coerentes e integrados
com os princípios gerais do currículo, 2. A avaliação
deve ser sistemática, cooperativa, construtiva e democratizada,
3. As informações para a avaliação devem ser
provenientes de várias fontes, 4. O desempenho do docente é
avaliado pelos estudantes junto a cada unidade educacional ou estágio.
As unidades educacionais e estágios são avaliados tanto por
estudantes como por docentes ao final destas atividades.
PRINCÍPIOS DO PBL
Tutoriais:
Tutoriais são seções
de trabalho em grupo nas quais estão reunidos 8 estudantes com um
tutor e um co-tutor. Durante os tutoriais discutem-se problemas, que são
proposições do grupo de planejamento curricular para estimular
o estudo de alguns tópicos integrados (interdisciplinares), favorecendo
o ganho de conhecimento em áreas específicas do currículo.
Para a solução dos problemas propostos, evocam-se os conhecimentos
prévios que os alunos tenham sobre um assunto e procura-se promover
a incorporação de novos conhecimentos. Estimular o trabalho
em grupo, o desenvolvimento de habilidades de comunicação
e liderança e de responsabilidade para com os outros é também
função dos tutoriais.
O tutor é um facilitador
de aprendizado. Ele não é um professor-expositor, não
está ali para ensinar, mas para instigar, incentivar, estimular
o esforço coletivo do grupo para avançar na compreensão
dos problemas propostos.
Para o desenvolvimento do
trabalho tutorial é necessário um treinamento básico
dos docentes tutores, uma compreensão da dinâmica do tutorial
e de como essa dinâmica favorece o processo de aprendizado.
Um problema é uma
situação clínica a partir da qual um conjunto de objetivos
de aprendizado a serem atingidos se definem. Ele pode ser um enunciado
que contenha a descrição de um fenômeno que requeira
explicações, um caso clínico preparado para este fim,
uma situação de laboratório ou outra.
O que é importante
é que o problema desencadeie uma série de atividades cujo
resultado seja a motivação do estudante para estudar temas
relacionados ao problema, de modo a atingir os objetivos de aprendizado
propostos.
A dinâmica do tutorial
é tal que sempre deve haver duas partes: na primeira se termina
a discussão de um problema iniciado no tutorial anterior; na segunda
se examina um novo problema.
COMPARAÇÃO ENTRE OS 7 PASSOS DE 4 ESCOLAS MÉDICAS
Universidade de Maastricht
HOLANDA Universidade
Estadual de Londrina-PR
(UEL) Faculdade de
Medicina de Marília-SP (FAMEMA) Escola Superior de Ciências
da Saúde-DF
(FEPECS)
1. Esclarecer termos e expressões
no texto do problema.
1. Esclarecer termos
e conceitos desconhecidos 1. Ler e compreender 1. Ler atentamente os problemas
e esclarecer os termos desconhecidos.
2. Definir o problema. 2.
Definir o problema (formular questões) 2. Encontrar as questões
a serem resolvidas 2. Identificar no proble-ma as questões de apren-dizagem
consideradas relevantes pelo grupo.
3. Analisar o problema.
3. Analisar o problema baseado em conhecimentos prévios (levantar
hipóteses) 3. Tentar respondê-las com o que se sabe (discussão)
3. Oferecer explicações para estas qauestões com base
no conhecimento prévio que o grupo tem sobre o assunto (for-mulação
de hipóteses).
4. Sistematizar análise
e hipóteses de explicação, ou solução
do problema. 4. Resumir as conclusões 4. Resumir o discutido 4.
Resumir estas explicações.
5. Formular objetivos de
aprendizagem. 5. Formular objetivos de estudo 5. Propor o que estudar 5.
estabelecer objetivos de aprendizagem que levem o aluno à compro-vação
ou não, ao apro-fundamento e à comple-mentação
das explica-ções.
6. Identificar fontes de
informação e adquirir novos conhecimentos individualmente.
6. Auto-aprendizado 6. Estudar 6. Estudo individual respeitando os objetivos
estabelecidos.
7. Sintetizar conhecimentos
e revisar hipóteses iniciais para o problema. 7. Dividir conhecimentos
com o grupo 7. Rediscutir o estudado 7. Rediscussão no grupo tutorial
dos avanços de conhecimento obtidos pelo grupo.
A partir da segunda
seção, inicia-se o tutorial pelo passo 7 do problema anterior,
após o que passa-se aos 5 primeiros passos do próximo problema.
Sugere-se que cada parte do tutorial não deve durar mais que uma
hora, com tolerância de meia hora para cada parte. Em decorrência,
um problema deve ser de tal tamanho ou complexidade que possa ser trabalhado
em duas seções de 1 hora cada, no máximo em 3 horas
no total.
Entre um tutorial e outro
deve se passar pelo menos 48 horas, durante as quais os alunos tenham pelo
menos de 12 a 16 horas para estudar.
Auto estudo
A auto-formação
(aprender a aprender) é a lei suprema do aprendizado baseado em
problemas. O estudo pode ser individual ou em pequenos grupos e o aluno
deve ter prazer em estudar, da forma como se sentir mais confortável
e que lhe trouxer melhor rendimento. Para tanto, o programa curricular
deve prever tempo suficiente para o auto-estudo, sem sufocar o estudante
com múltiplas atividades (o chamado "horário protegido").
Conferência
Conferências, aulas,
práticas, mesas redondas, simpósios e similares são
exposições teóricas uni ou multiprofissionais e são
interessantes para: a) introduzir o aluno em uma nova área do conhecimento
da qual não detenha conhecimentos prévios ou para b) resumir
e ordenar uma área de conhecimento que os alunos tenham estudado,
mas cuja complexidade possa ser esclarecida por alguma forma de exposição
didática por um ou mais especialistas. Devem ser concebidas como
ferramentas de auxílio aos tutoriais, nunca como métodos
centrais de ensino. Os docentes não devem sucumbir à tentação
de aumentar o conteúdo através de conferências exaustivas
nem de cobrir todo o conteúdo com práticas auto previsíveis.
Em um programa PBL, as conferências devem ser limitadas às
essências, ao que é importante e fundamental para que um determinado
conteúdo ou tema seja adequadamente compreendido pelos alunos, especialmente
quando esses conteúdos ou temas forem muito abrangentes ou muito
complexos ou muito áridos para o auto-aprendizado.
Especialista
Especialistas servem para
planejar o currículo e as avaliações e para oferecer
"consultoria" para os alunos, isto é, para estarem disponíveis
para que os alunos possam consultá-los a propósito de dúvidas
que tenham emergido de seus estudos individuais e outras formas de aprendizado.
Além disso, os especialistas
podem ser tutores, instrutores, assessores etc..
Recursos Didáticos
Recursos didáticos
constituem toda a gama de elementos que os alunos possam dispor para fazer
avançar seu aprendizado: biblioteca, programas de computador, Internet,
modelos e peças anatômicas, laboratórios variados,
vídeos, slides, demonstrações, equipamentos médicos
(ECG, USG, Radioscopia, etc).
Os recursos didáticos
podem estar disponíveis para o manuseio dos alunos e para demonstrações
por docentes.
Hospitais, Centros de saúde, Laboratórios, outros recursos de saúde
Os alunos devem ter a oportunidade
de praticar o que aprenderam onde quer que a medicina seja praticada e
não só no ambiente hospitalar, como se fosse um internato
clássico. Devem entender o relacionamento e a complexidade dos vários
recursos disponíveis para a promoção e para o tratamento
da saúde da população e suas inter-relações.
A inserção dos alunos nessas facilidades deve ser a mais
cedo possível.
O Currículo
A organização
curricular da ESCS prevê 6 anos de estudos para a gradução,
distribuídos assim: 4 anos de formação teórico-prática
e 2 anos de internato. O currículo dos 4 anos de formação
teórico-prática está estruturado em:
* unidades educacionais
verticais, os Módulos Temáticos, que duram de 4 a 7 semanas;
* unidades educacionais
horizontais, que são duas e duram todo o ano letivo: Habilidades
e Atitudes (HAI, II, III e IV) e Interação Ensino-Serviços-Comunidade
(IESC I, II, III e IV);
* módulos eletivos
(Atualização I, II, III e IV), que são módulos
de escolha individual de cada estudante, para personalização
de seu currículo. Estes têm duração de 2 a 4
semanas, e permitem que o estudante escolha entre um leque de opções
que lhe são ofertadas dentro do currículo médico.
O que se chama aqui de módulo
temático não é o mesmo que disciplina, no sentido
do currículo tradicional. Todavia, esses módulos contêm
assuntos comuns tratados em várias disciplinas, de forma integrada,
envolvendo aspectos morfo-funcionais, patológicos, epidemiológicos,
psicossociais e clínicos do assunto estudado. Esses módulos
temáticos são distribuídos em 38 semanas de estudos
anuais. Durante estes 4 anos iniciais do curso, o domínio cognitivo
no currículo é trabalhado nas fases de 1 a 6 dos chamados
passos, enquanto que o domínio psicomotor é trabalhado nos
laboratórios, nos ambulatórios, nas enfermarias, hos hospitais
e em outros espaços operacionais onde as habilidades e atitudes
sejam factíveis.
Os dois últimos
anos do curso. Estes correspondem ao Internato Médico. Será
cumprido em Hospitais e Ambulatórios da Rede de Saúde da
Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Será realizado em
forma de rodízio nas grandes áreas clínicas, como
pediatria, gineco-obstetrícia, clínica médica, clínica
cirúrgica e psiquiatria. A escola tem afirmado que as diretrizes
norteadoras do currículo obedecem à seqüência
lógica do ciclo vital, da ecologia humana e da formação
geral do médico.
Habilidades
O desenvolvimento das habilidades
necessárias à prática profissional é de tal
forma importante que as habilidades recebem um tratamento diferenciado
no currículo. Devem ser integradas aos módulos e tutoriais
ao máximo possível, mas inevitavelmente alguns temas não
encontrarão integração adequada ou não poderão
ser ofertados no momento adequado.
Desta forma as habilidades
devem merecer um planejamento à parte, de modo a garantir que todos
os alunos tenham tido a oportunidade de praticar aquelas consideradas fundamentais
antes de se formar.
Constituem habilidades a
capacidade de se comunicar com os pacientes e com seus pares, a capacidade
de desenvolver uma anamnese e um exame físico, de formular hipóteses
diagnósticas e de prescrever, de realizar procedimentos necessários
à prática médica tais como: colher sangue, passar
uma sonda uretral ou nasogástrica, realizar uma punção
liquórica, obter um eletrocardiograma, realizar um toque retal,
avaliar a pressão arterial, avaliar o crescimento e o desenvolvimento,
etc..
Enfim, tudo aquilo de natureza
psicomotora e que demande treinamento que o grupo de planejamento entender
ser necessário à formação do médico
para aquela região geográfica e epidemiológica do
país.
O treinamento de habilidades
merece, no currículo PBL, tanta atenção quanto o desenvolvimento
dos conhecimentos teóricos.
Deve-se garantir que os
alunos aprendam corretamente as habilidades necessárias e dar a
oportunidade de que eles demonstrem o aprendizado em avaliações
especialmente designadas para tal fim.
A sequência de aprendizado
de habilidades é: 1) treinamento em modelo de plástico _avaliação;
2) treinamento inter-pares _- avaliação;3) treinamento em
paciente consentido _- avaliação; 4) treinamento em paciente
real _- avaliação (avaliação permanente sempre
deve ser perseguida como ideal para o aprendizado das habilidades).
EM CONCLUSÃO
Certamente muitos outros
aspectos do PBL poderiam ser abordados aqui (como o critério de
avaliação, a semana padrão e outros). Entretanto,
por se tratar de um artigo de síntese inicial, abordei somente alguns
aspectos fundamentais, e também apresentei algumas comparações
e aspectos do esforço atual que está significando a implantação
de uma escola médica que já adota desde seu primeiro dia
a novel metodologia. Meu projeto é ter oportunidades outras de retomar
esse tema, e de analisá-lo mais detidamente e sobre outros ângulos,
em próximas publicações.
Na verdade, do que foi dito
aqui, já seria um avanço que se retivesse o seguinte:
O aprendizado baseado em
problemas é um conjunto de princípios pedagógicos
orientado ao ensino de adultos, que privilegia:
* o auto-aprendizado (aprendizado
independente)
* o estudo em pequenos grupos
* o conteúdo teórico
congruente com a prática futura
* o respeito ao conhecimento
prévio do estudante
* a interação
interpessoal intensiva
* o incentivo à auto-motivação
Na aplicação
prática do PBL, recorre-se a uma multiplicidade de técnicas
facilitadoras da ação voltada ao aprendizado, que devem ser:
dominadas por todo o corpo docente, integradas e integrativas e suficientes
para transmitir os conhecimentos necessários e essenciais a um determinado
exercício profissional. Essas técnicas devem ser encaradas
como dinâmicas, variáveis, aperfeiçoáveis, mutáveis.
Enfim, o aprendizado baseado em problemas é uma sistemática
de ensino privilegiadora de um processo de formação
e não de um conteúdo curricular, ensina-se menos e melhor
para que o aluno possa aprender a aprender mais e melhor.
Finalmente, repensar a educação
médica implica, na medida em que as mudanças obtidas sejam
relevantes, em também repensar a universidade, pois seu imobilismo
pode ameaçar a sustentabilidade das próprias conquistas obtidas.
davigoncalves@medico-df.com.br.
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