MUDANÇA DE PARADIGMA NA EDUCAÇÃO MÉDICA
 
 

Davi Gonçalves
Professor de Medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde ­ Secretaria de Estado de Saúde do DF / FEPECS (Fundação de Estudo e Pesquisas em Ciências da Saúde)

Educação: considerações preliminares

Os antigos gregos, ao se referirem à educação, usavam a palavra ’anatrofi (anatrofi): a nutrição para crescer - substantivo procedente do verbo ’anatrofein (anatrofein), que quer dizer alimentar-se;  o prefixo ’ana_ (ana) dá a idéia de algo que se acrescenta, que se acentua, que se adiciona, enquanto o radical trofi (trofi) significa alimento, nutrição... Assim, nesta acepção, a educação é um tipo de alimento para o crescimento, e ela implica em fornecer alimentos próprios para o fazer crescer, como também uma assimilação própria (particular) e adequada do alimento (Solon SPANOUDIS apud CRITELLI ). Nas línguas  neo-latinas e em outras línguas modernas a palavra educação derivou-se do latim educere (ex+ducere). Ducere  é verbo, significando conduzir, levar, e ex  é o prefixo com idéia de lugar significando de onde, para fora de, empregado da mesma forma que na palavra  expor (pôr à vista, tirar do esconderijo, mostrar, pôr para fora); neste caso, educere seria conduzir algo ou alguém para outro lugar diferente daquele em que se encontrava originalmente (CRITELLI ). Para mim, dentro das linhas deste trabalho, o significado geral de educação parece encontrar-se na convergência do sentido grego com o sentido latino. Nesta convergência de conceitos não fica espaço para a concepção acumulativa da educação bancária; além disso, contempla-se o conceito da educação conscientizadora, ou problematizadora, ou crítica, que "considera os homens como seres em "devenir", como seres inacabados, incompletos em uma realidade igualmente inacabada..." (FREIRE ). Neste caso, a idéia de inacabamento  dos homens (LAPASSADE ), e o caráter evolutivo da realidade exigem que a educação seja uma atividade contínua, na formação da consciência dos homens (FREIRE ),  na formação e estruturação de seu ser, "y comprise", digo eu, sua formação profissional, neste caso, como médicos. Aplico aqui o disse William Osler, ao escrever aos docentes de medicina: "educação é um processo vitalício, e o que fazemos nós [docentes] é somente instilar princípios, conduzir o estudante no caminho certo, apresentar-lhe métodos, ensinar a ele como estudar, e como discernir, logo, o essencial do não-essencial".

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Levando-se em conta tais conceitos, e aplicando-os à educação médica, ressalta-se:
-a necessidade de uma educação médica voltada para os problemas reais de saúde do homem na sociedade atual;
-a necessidade de reformulação da educação médica com vistas a formar profissionais capazes de atender contextualmente a esses problemas;
-a necessidade de busca e utilização de uma metodologia de ensino-aprendizagem capaz de reformular a educação médica tradicional de forma competente, abrangente e permanente (formação continuada).
É aqui que surge, então, como resposta a esses desafios as propostas pedagógicas que aplicam a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL ­ Problem Based Learning).

Início do PBL na educação médica
 
Nos Estados Unidos da América, a Case Western Reserve University School of Medicine introduziu a abordagem teórico-prática nos anos iniciais de ensino da medicina na década de 1950. Mas a mudança marcante na educação médica ocorrida nas Américas adveio da Universidade McMaster (Canadá) nos anos 1960. No curso de Medicina dessa universidade foi instituída a metodologia de ensino centrada no estudante, voltada para a realidade, e baseada em problemas. Posteriormente várias adaptações do modelo de McMaster foram adotadas por outras universidades nos Estados Unidos (Harvard, Havaí, Novo México, Michigan State, Bowman Gray, Rush, Tufts, Southern Illinois) e em outros países (Austrália, Brasil, Chile, Egito, Filipinas, Grã-Bretanha, Holanda, Hong-Kong, Indonésia, Malásia, Nigéria, Suécia, Suíça, Taiwan e outros). Na América do Norte, a necessidade da mudança foi ratificada pelo chamado relatório GPEP (General Professional Education of the Physicians and College Preparation for Medicine Report), publicado em 1989 sob o título "Physicians for the Twenty-First Century". Esse relatório afirma que "para acompanhar as novas tecnologias e informações científicas, os médicos precisam permanentemente adquirir novos conhecimentos e aprender novas habilidades. Portanto, uma educação profissional geral deve preparar os estudantes de medicina para aprender continuamente ao longo de sua carreira profissional, em vez de simplesmente fazê-los dominar os conhecimentos e as técnicas do momento. Auto-formação ativa e independente requer, entre outras qualidades, a habilidade de identificar, formular e resolver problemas, compreender e usar conceitos e princípios básicos bem como acessar e coletar dados com rigor e senso crítico" .
Mesmo antes desse relatório, a Universidade de McMaster já se preocupava com o assunto e começou seus estudos de mudança de currículo em 1966; em 1969  admitiu a primeira turma de estudantes de  Medicina em que aplicou seu currículo inovador. Segundo Dr. John Evans, deão da escola naquele ano, o foco de preocupação do grupo de planejamento que elaborou os estudos era "manter-se distante da estrutura dos moldes já padronizados, nos quais os conteúdos eram empurrados goela abaixo dos estudantes, o que eles não retêm de forma alguma, mas adotar um sistema no qual os estudantes sejam ativamente envolvidos no processo de aprendizagem" .  O resultado final foi o surgimento do atual curso de Medicina da Universidade de McMaster, utilizando o programa "Problem-Based Learning", com as seguintes características:
-   ausência de matérias caracterizadas como disciplinas;
- ênfase na solução de problemas;
- abordagem integrada da biologia humana.

Os pontos-chave do programa são: análise de problemas de saúde como o método principal de adquirir e aplicar conhecimentos; desenvolvimento de habilidades de auto-formação vitalícia e independente no estudante; e o uso de pequenos grupos tutoriais de estudos, com 5 ou 6 estudantes, como  núcleo educacional básico . A estrutura do currículo consiste em uma série de Unidades ou Blocos [Módulos] interdisciplinares, compreendendo também um último ano de internato rotativo em clínicas. As habilidades clínicas, incluindo habilidades de comunicação, são adquiridas paralela e integradamente ao longo do curso.
 

Aplicação do PBL na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) da SES-DF

Longum iter est per præcepta, breve et efficax per exempla
      ("Longo é o caminho da teoria, breve e eficaz o da prática") - SÊNECA

No Brasil, a nível de graduação , as faculdades de Medicina de Londrina e Marília foram as pioneiras na aplicação do PBL à formação médica, há 4 anos. As universidades de Santa Cruz (Bahia) e de Roraima estão em fase de implantação dessa metodologia, e a ESCS inicia seu curso médico já centrado no PBL. Foram as essas escolas que inspiraram e assessoraram a introdução do PBL na ESCS. Como ocorre nesses programas, o currículo do curso não está fatiado em disciplinas nem é engessado. Ele é considerado como um conjunto teórico-prático dinâmico, constituído de módulos inter-relacionados que se integram e se adaptam viva e continuamente conforme será mostrado.
Em setembro de 2001 tem início o Curso de Medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) da SES-DF (Secretaria de Saúde do Governo do Distrito Federal). "O planejamento ocorreu em três fases. A primeira centrou-se em uma articulação da filosofia educacional da escola e uma clara definição da filosofia determinante de todas as decisões curriculares. Neste momento foram adotadas as seguintes etapas: a) identificação de competências exigidas ao graduado; b) o estabelecimento de convênios institucionais ­ com instituições que desenvolvem programas educacionais similares; c) seleção e criação de meios de treinamento; e d) seleção e capacitação dos membros da Escola. A segunda fase consiste em articular as experiências de aprendizagem nas três estratégias que se sobrepõem: aprendizagem baseada em problemas, as habilidades e a interação ensino-serviços-comunidade. A fase final, que é também coerente com a filosofia da escola, é a da correção dos rumos do curso através de um sistema de avaliação. O currículo é  visto como um processo dinâmico que permite ajustamento contínuo".

 O novo curso adota um currículo caracterizado por metodologia de ensino fundamentalmente centrada no estudante, baseada em problemas e orientada à comunidade, com ênfase na integração básico-clínica. Pretende-se a formação de profissionais que não privilegiem a doença, mas o doente, capazes de atuar na solução de problemas de saúde mais relevantes da comunidade, e que estejam comprometidos, ademais, com a promoção e recuperação da saúde e prevenção da doença com base em princípios éticos, humanísticos e sociais . Isso quer dizer que esta escola adota o PBL (Problem Based Learning) como metodologia de ensino-aprendizado. Conforme ocorre também em outras escolas, o programa consiste em "uma metodologia ativa de ensino-aprendizagem na qual o estudante explora problemas educacionais trabalhando em pequenos grupos" .  Embora essa metodologia não seja uma invenção particular da ESCS, está claro, segue ela, entretanto, caminhos próprios.

Mudança de paradigma: em andamento

 Para exemplificar a estrutura e dinâmica desse novo paradigma, irei descrever alguns aspectos de seu desenrolar. Grande parte do material a seguir foi apresentada pelos consultores na UEL e da FAMEMA nas conferências de capacitação dos docentes da ESCS-DF, no primeiro semestre de 2001. Outra parte decorreu do esforço dos docentes da ESCS em aplicar a nova abordagem ao novo curso do DF.
 Dois aspectos a serem notados no desenrolar desse programa, em comparação com os programas tradicionais: a ênfase nas mudanças de foco na prática médica e nas mudanças de foco no ensino médico. Neste primeiro quadro, na coluna da esquerda estão os itens que são valorizados na prática da educação médica tradicional. Na coluna da esquerda, em itálico, estão os itens para os quais são deslocados os novos enfoques formativos

 Mudanças de foco na prática

DO INDIVÍDUO PARA A COMUNIDADE
Da cura da doença Para a preservação da saúde
Do cuidado episódico Para o contínuo e compreensivo
Da abordagem individual por um único médico Para a abordagem multiprofissional na comunidade
Do paternalismo Para a autonomia do paciente
Do sistema centralizado hospitalar Para o enfoque do cuidado primário
Do cuidado ao paciente internado Para o cuidado distribuído (casa, hospital-dia e cuidados intermediários
Do caso anedótico Para a medicina baseada em evidências
Do médico como único dono do saber Para a informação universalizada e democrática

No quadro abaixo é feita a comparação entre a mudança de foco no ensino médico, o tradicional (na coluna da esquerda) e o que está sendo proposto (na coluna da direita, em itálico).

Mudanças de foco no ensino médico

Do indivíduo Para a comunidade
Da cura da doença Para a preservação da saúde
Do cuidado episódico Para o contínuo e compreensivo
Da abordagem individual por um único médico Para a abordagem multiprofissional na comunidade
Do paternalismo Para a autonomia do aluno
Do sistema centralizado hospitalar Para o enfoque do cuidado primário
Do cuidado ao paciente internado Para o cuidado distribuído (casa, hospital dia e cuidados intermediários
Do caso anedótico Para a medicina baseada em evidências
Do professor como único dono do saber Para a informação universalizada e democrática (internet)
 

O primeiro módulo do curso de Medicina da ESCS  ­ Introdução ao Estudo da Medicina ­ apresenta os seguintes objetivos:  1) acolher os estudantes no ambiente da escola; 2) apresentar o Curso de Medicina da ESCS: metodologia de ensino-aprendizagem, semana-padrão, sistema de avaliação, organização curricular; 3) apresentar aspectos relevantes da história da Medicina e da educação médica; 4) propiciar elementos introdutórios para o conhecimento dos princípios éticos que regem a prática da medicina; 5) capacitar os estudantes para a utilização de ferramentas básicas de informática em saúde;6) sensibilizar os estudantes para a necessidade de desenvolver a capacidade de avaliação crítica das informações científicas veiculadas por revistas médicas e introduzir noções fundamentais de delineamentos de estudos. As metodologias educacionais incluem a aprendizagem baseada em problemas, palestras e atividades práticas que envolvem capacitação para a adequada utilização da Biblioteca, bem como para o acesso a informações por meio das bases locais e remotas (INTERNET) e treinamento básico em informática .
O sistema de avaliação é dirigido às atividades discentes e docentes, às unidades educacionais e aos estágios, ou seja, a todas as etapas e atores do processo educacional. Este se baseia nos seguintes princípios: 1. Os métodos de avaliação devem ser coerentes e integrados com os princípios gerais do currículo, 2. A avaliação deve ser sistemática, cooperativa, construtiva e democratizada, 3. As informações para a avaliação devem ser provenientes de várias fontes, 4. O desempenho do docente é avaliado pelos estudantes junto a cada unidade educacional ou estágio. As unidades educacionais e estágios são avaliados tanto por estudantes como por docentes ao final destas atividades.
 
PRINCÍPIOS DO PBL
 

Tutoriais:

Tutoriais são seções de trabalho em grupo nas quais estão reunidos 8 estudantes com um tutor e um co-tutor. Durante os tutoriais discutem-se problemas, que são proposições do grupo de planejamento curricular para estimular o estudo de alguns tópicos integrados (interdisciplinares), favorecendo o ganho de conhecimento em áreas específicas do currículo. Para a solução dos problemas propostos, evocam-se os conhecimentos prévios que os alunos tenham sobre um assunto e procura-se promover a incorporação de novos conhecimentos. Estimular o trabalho em grupo, o desenvolvimento de habilidades de comunicação e liderança e de responsabilidade para com os outros é também função dos tutoriais.
O tutor é um facilitador de aprendizado. Ele não é um professor-expositor, não está ali para ensinar, mas para instigar, incentivar, estimular o esforço coletivo do grupo para avançar na compreensão dos problemas propostos.
Para o desenvolvimento do trabalho tutorial é necessário um treinamento básico dos docentes tutores, uma compreensão da dinâmica do tutorial e de como essa dinâmica favorece o processo de aprendizado.
Um problema é uma situação clínica a partir da qual um conjunto de objetivos de aprendizado a serem atingidos se definem. Ele pode ser um enunciado que contenha a descrição de um fenômeno que requeira explicações, um caso clínico preparado para este fim, uma situação de laboratório ou outra.
O que é importante é que o problema desencadeie uma série de atividades cujo resultado seja a motivação do estudante para estudar temas relacionados ao problema, de modo a atingir os objetivos de aprendizado propostos.
A dinâmica do tutorial é tal que sempre deve haver duas partes: na primeira se termina a discussão de um problema iniciado no tutorial anterior; na segunda se examina um novo problema.
 
 

 COMPARAÇÃO ENTRE OS 7 PASSOS DE 4 ESCOLAS MÉDICAS

Universidade de Maastricht
HOLANDA  Universidade Estadual de Londrina-PR
 (UEL) Faculdade de Medicina de Marília-SP (FAMEMA) Escola Superior de Ciências da Saúde-DF
(FEPECS)
1. Esclarecer termos e expressões no texto do problema.
 1. Esclarecer termos e conceitos desconhecidos 1. Ler e compreender 1. Ler atentamente os problemas e esclarecer os termos desconhecidos.
2. Definir o problema. 2. Definir o problema (formular questões) 2. Encontrar as questões a serem resolvidas 2. Identificar no proble-ma as questões de apren-dizagem consideradas relevantes pelo grupo.
3. Analisar o problema. 3. Analisar o problema baseado em conhecimentos prévios (levantar hipóteses) 3. Tentar respondê-las com o que se sabe (discussão) 3. Oferecer explicações para estas qauestões com base no conhecimento prévio que o grupo tem sobre o assunto (for-mulação de hipóteses).
4. Sistematizar análise e hipóteses de explicação, ou solução do problema. 4. Resumir as conclusões 4. Resumir o discutido 4. Resumir estas explicações.
5. Formular objetivos de aprendizagem. 5. Formular objetivos de estudo 5. Propor o que estudar 5. estabelecer objetivos de aprendizagem que levem o aluno à compro-vação  ou não, ao apro-fundamento e à comple-mentação das explica-ções.
6. Identificar fontes de informação e adquirir novos conhecimentos individualmente. 6. Auto-aprendizado 6. Estudar 6. Estudo individual respeitando os objetivos estabelecidos.
7. Sintetizar conhecimentos e revisar hipóteses iniciais para o problema. 7. Dividir conhecimentos com o grupo 7. Rediscutir o estudado 7. Rediscussão no grupo tutorial dos avanços de conhecimento obtidos pelo grupo.

 A partir da segunda seção, inicia-se o tutorial pelo passo 7 do problema anterior, após o que passa-se aos 5 primeiros passos do próximo problema. Sugere-se que cada parte do tutorial não deve durar mais que uma hora, com tolerância de meia hora para cada parte. Em decorrência, um problema deve ser de tal tamanho ou complexidade que possa ser trabalhado em duas seções de 1 hora cada, no máximo em 3 horas no total.
Entre um tutorial e outro deve se passar pelo menos 48 horas, durante as quais os alunos tenham pelo menos de 12 a 16 horas para estudar.

Auto estudo
 A auto-formação (aprender a aprender) é a lei suprema do aprendizado baseado em problemas. O estudo pode ser individual ou em pequenos grupos e o aluno deve ter prazer em estudar, da forma como se sentir mais confortável e que lhe trouxer melhor rendimento. Para tanto, o programa curricular deve prever tempo suficiente para o auto-estudo, sem sufocar o estudante com múltiplas atividades (o chamado "horário protegido").
 Conferência

Conferências, aulas, práticas, mesas redondas, simpósios e similares são exposições teóricas uni ou multiprofissionais e são interessantes para: a) introduzir o aluno em uma nova área do conhecimento da qual não detenha conhecimentos prévios ou para b) resumir e ordenar uma área de conhecimento que os alunos tenham estudado, mas cuja complexidade possa ser esclarecida por alguma forma de exposição didática por um ou mais especialistas. Devem ser concebidas como ferramentas de auxílio aos tutoriais, nunca como métodos centrais de ensino. Os docentes não devem sucumbir à tentação de aumentar o conteúdo através de conferências exaustivas nem de cobrir todo o conteúdo com práticas auto previsíveis. Em um programa PBL, as conferências devem ser limitadas às essências, ao que é importante e fundamental para que um determinado conteúdo ou tema seja adequadamente compreendido pelos alunos, especialmente quando esses conteúdos ou temas forem muito abrangentes ou muito complexos ou muito áridos para o auto-aprendizado.
 

Especialista

Especialistas servem para planejar o currículo e as avaliações e para oferecer "consultoria" para os alunos, isto é, para estarem disponíveis para que os alunos possam consultá-los a propósito de dúvidas que tenham emergido de seus estudos individuais e outras formas de aprendizado.
Além disso, os especialistas podem ser tutores, instrutores, assessores etc..

Recursos Didáticos

Recursos didáticos constituem toda a gama de elementos que os alunos possam dispor para fazer avançar seu aprendizado: biblioteca, programas de computador, Internet, modelos e peças anatômicas, laboratórios variados, vídeos, slides, demonstrações, equipamentos médicos (ECG, USG, Radioscopia, etc).
Os recursos didáticos podem estar disponíveis para o manuseio dos alunos e para demonstrações por docentes.

Hospitais, Centros de saúde, Laboratórios, outros recursos de saúde

Os alunos devem ter a oportunidade de praticar o que aprenderam onde quer que a medicina seja praticada e não só no ambiente hospitalar, como se fosse um internato clássico. Devem entender o relacionamento e a complexidade dos vários recursos disponíveis para a promoção e para o tratamento da saúde da população e suas inter-relações. A inserção dos alunos nessas facilidades deve ser a mais cedo possível.
O Currículo

A organização curricular da ESCS prevê 6 anos de estudos para a gradução, distribuídos assim: 4 anos de formação teórico-prática e 2 anos de internato. O currículo dos 4 anos de formação teórico-prática está estruturado em:
* unidades educacionais verticais, os Módulos Temáticos, que duram de 4 a 7 semanas;
* unidades educacionais horizontais, que são duas e duram todo o ano letivo:  Habilidades e Atitudes (HAI, II, III e IV) e Interação Ensino-Serviços-Comunidade (IESC I, II, III e IV);
* módulos eletivos (Atualização I, II, III e IV), que são módulos de escolha individual de cada estudante, para personalização de seu currículo. Estes têm duração de 2 a 4 semanas, e permitem que o estudante escolha entre um leque de opções que lhe são ofertadas dentro do currículo médico.
O que se chama aqui de módulo temático não é o mesmo que disciplina, no sentido do currículo tradicional. Todavia, esses módulos contêm assuntos comuns tratados em várias disciplinas, de forma integrada, envolvendo aspectos morfo-funcionais, patológicos, epidemiológicos, psicossociais e clínicos  do assunto estudado. Esses módulos temáticos são distribuídos em 38 semanas de estudos anuais. Durante estes 4 anos iniciais do curso, o domínio cognitivo no currículo é trabalhado nas fases de 1 a 6 dos chamados passos, enquanto que o domínio psicomotor é trabalhado nos laboratórios, nos ambulatórios, nas enfermarias, hos hospitais e em outros espaços operacionais onde as habilidades e atitudes sejam factíveis.
 
 Os dois últimos anos do curso. Estes correspondem ao Internato Médico. Será cumprido em Hospitais e Ambulatórios da Rede de Saúde da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Será realizado em forma de rodízio nas grandes áreas clínicas, como pediatria, gineco-obstetrícia, clínica médica, clínica cirúrgica e psiquiatria. A escola tem afirmado que as diretrizes norteadoras do currículo obedecem à seqüência lógica do ciclo vital, da ecologia humana e da formação geral do médico.

Habilidades
O desenvolvimento das habilidades necessárias à prática profissional é de tal forma importante que as habilidades recebem um tratamento diferenciado no currículo. Devem ser integradas aos módulos e tutoriais ao máximo possível, mas inevitavelmente alguns temas não encontrarão integração adequada ou não poderão ser ofertados no momento adequado.
Desta forma as habilidades devem merecer um planejamento à parte, de modo a garantir que todos os alunos tenham tido a oportunidade de praticar aquelas consideradas fundamentais antes de se formar.
Constituem habilidades a capacidade de se comunicar com os pacientes e com seus pares, a capacidade de desenvolver uma anamnese e um exame físico, de formular hipóteses diagnósticas e de prescrever, de realizar procedimentos necessários à prática médica tais como: colher sangue, passar uma sonda uretral ou nasogástrica, realizar uma punção liquórica, obter um eletrocardiograma, realizar um toque retal, avaliar a pressão arterial, avaliar o crescimento e o desenvolvimento, etc..
Enfim, tudo aquilo de natureza psicomotora e que demande treinamento que o grupo de planejamento entender ser necessário à formação do médico para aquela região geográfica e epidemiológica do país.
O treinamento de habilidades merece, no currículo PBL, tanta atenção quanto o desenvolvimento dos conhecimentos teóricos.
Deve-se garantir que os alunos aprendam corretamente as habilidades necessárias e dar a oportunidade de que eles demonstrem o aprendizado em avaliações especialmente designadas para tal fim.
A sequência de aprendizado de habilidades é: 1) treinamento em modelo de plástico _avaliação; 2) treinamento inter-pares _- avaliação;3) treinamento em paciente consentido _- avaliação; 4) treinamento em paciente real _- avaliação (avaliação permanente sempre deve ser perseguida como ideal para o aprendizado das habilidades).
 

 
EM CONCLUSÃO

Certamente muitos outros aspectos do PBL poderiam ser abordados aqui (como o critério de avaliação, a semana padrão e outros). Entretanto, por se tratar de um artigo de síntese inicial, abordei somente alguns aspectos fundamentais, e também apresentei  algumas comparações e aspectos do esforço atual que está significando a implantação de uma escola médica que já adota desde seu primeiro dia a novel metodologia. Meu projeto é ter oportunidades outras de retomar esse tema, e de analisá-lo mais detidamente e sobre outros ângulos, em próximas publicações.
Na verdade, do que foi dito aqui, já seria um avanço que se retivesse o seguinte:
O aprendizado baseado em problemas é um conjunto de princípios pedagógicos orientado ao ensino de adultos, que privilegia:
* o auto-aprendizado (aprendizado independente)
* o estudo em pequenos grupos
* o conteúdo teórico congruente com a prática futura
* o respeito ao conhecimento prévio do estudante
* a interação interpessoal intensiva
* o incentivo à auto-motivação

Na aplicação prática do PBL, recorre-se  a uma multiplicidade de técnicas facilitadoras da ação voltada ao aprendizado, que devem ser: dominadas por todo o corpo docente, integradas e integrativas e suficientes para transmitir os conhecimentos necessários e essenciais a um determinado exercício profissional. Essas técnicas devem ser encaradas como dinâmicas, variáveis, aperfeiçoáveis, mutáveis. Enfim, o aprendizado baseado em problemas é uma sistemática de ensino privilegiadora de um processo de formação  e não de um conteúdo curricular, ensina-se menos e melhor para que o aluno possa aprender a aprender mais e melhor.
Finalmente, repensar a educação médica implica, na medida em que as mudanças obtidas sejam relevantes, em também repensar a universidade, pois seu imobilismo pode ameaçar a sustentabilidade das próprias conquistas obtidas.
 

davigoncalves@medico-df.com.br.
 
 
 
 

 

 BIBLIOGRAFIA

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