MUDANÇA DE PARADIGMA NAEDUCAÇÃO MÉDICA
 
 

Davi Gonçalves
Professor de Medicina daEscola Superior de Ciências da Saúde ­ Secretaria de Estadode Saúde do DF / FEPECS (Fundação de Estudo e Pesquisasem Ciências da Saúde)

Educação: consideraçõespreliminares

Os antigos gregos, ao sereferirem à educação, usavam a palavra ’anatrofi (anatrofi):a nutrição para crescer - substantivo procedente do verbo’anatrofein (anatrofein), que quer dizer alimentar-se;  o prefixo’ana_ (ana) dá a idéia de algo que se acrescenta, que seacentua, que se adiciona, enquanto o radical trofi (trofi) significa alimento,nutrição... Assim, nesta acepção, a educaçãoé um tipo de alimento para o crescimento, e ela implica em forneceralimentos próprios para o fazer crescer, como também umaassimilação própria (particular) e adequada do alimento(Solon SPANOUDIS apud CRITELLI ). Nas línguas  neo-latinase em outras línguas modernas a palavra educação derivou-sedo latim educere (ex+ducere). Ducere  é verbo, significandoconduzir, levar, e ex  é o prefixo com idéia de lugarsignificando de onde, para fora de, empregado da mesma forma que na palavra expor (pôr à vista, tirar do esconderijo, mostrar, pôrpara fora); neste caso, educere seria conduzir algo ou alguém paraoutro lugar diferente daquele em que se encontrava originalmente (CRITELLI). Para mim, dentro das linhas deste trabalho, o significado geral de educaçãoparece encontrar-se na convergência do sentido grego com o sentidolatino. Nesta convergência de conceitos não fica espaçopara a concepção acumulativa da educação bancária;além disso, contempla-se o conceito da educação conscientizadora,ou problematizadora, ou crítica, que "considera os homens como seresem "devenir", como seres inacabados, incompletos em uma realidade igualmenteinacabada..." (FREIRE ). Neste caso, a idéia de inacabamento dos homens (LAPASSADE ), e o caráter evolutivo da realidade exigemque a educação seja uma atividade contínua, na formaçãoda consciência dos homens (FREIRE ),  na formaçãoe estruturação de seu ser, "y comprise", digo eu, sua formaçãoprofissional, neste caso, como médicos. Aplico aqui o disse WilliamOsler, ao escrever aos docentes de medicina: "educação éum processo vitalício, e o que fazemos nós [docentes] ésomente instilar princípios, conduzir o estudante no caminho certo,apresentar-lhe métodos, ensinar a ele como estudar, e como discernir,logo, o essencial do não-essencial".

.
 

Levando-se em conta taisconceitos, e aplicando-os à educação médica,ressalta-se:
-a necessidade de uma educaçãomédica voltada para os problemas reais de saúde do homemna sociedade atual;
-a necessidade de reformulaçãoda educação médica com vistas a formar profissionaiscapazes de atender contextualmente a esses problemas;
-a necessidade de buscae utilização de uma metodologia de ensino-aprendizagem capazde reformular a educação médica tradicional de formacompetente, abrangente e permanente (formação continuada).
É aqui que surge,então, como resposta a esses desafios as propostas pedagógicasque aplicam a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL ­ Problem BasedLearning).

Início do PBL na educaçãomédica
 
Nos Estados Unidos da América,a Case Western Reserve University School of Medicine introduziu a abordagemteórico-prática nos anos iniciais de ensino da medicina nadécada de 1950. Mas a mudança marcante na educaçãomédica ocorrida nas Américas adveio da Universidade McMaster(Canadá) nos anos 1960. No curso de Medicina dessa universidadefoi instituída a metodologia de ensino centrada no estudante, voltadapara a realidade, e baseada em problemas. Posteriormente váriasadaptações do modelo de McMaster foram adotadas por outrasuniversidades nos Estados Unidos (Harvard, Havaí, Novo México,Michigan State, Bowman Gray, Rush, Tufts, Southern Illinois) e em outrospaíses (Austrália, Brasil, Chile, Egito, Filipinas, Grã-Bretanha,Holanda, Hong-Kong, Indonésia, Malásia, Nigéria, Suécia,Suíça, Taiwan e outros). Na América do Norte, a necessidadeda mudança foi ratificada pelo chamado relatório GPEP (GeneralProfessional Education of the Physicians and College Preparation for MedicineReport), publicado em 1989 sob o título "Physicians for the Twenty-FirstCentury". Esse relatório afirma que "para acompanhar as novas tecnologiase informações científicas, os médicos precisampermanentemente adquirir novos conhecimentos e aprender novas habilidades.Portanto, uma educação profissional geral deve preparar osestudantes de medicina para aprender continuamente ao longo de sua carreiraprofissional, em vez de simplesmente fazê-los dominar os conhecimentose as técnicas do momento. Auto-formação ativa e independenterequer, entre outras qualidades, a habilidade de identificar, formulare resolver problemas, compreender e usar conceitos e princípiosbásicos bem como acessar e coletar dados com rigor e senso crítico".
Mesmo antes desse relatório,a Universidade de McMaster já se preocupava com o assunto e começouseus estudos de mudança de currículo em 1966; em 1969 admitiu a primeira turma de estudantes de  Medicina em que aplicouseu currículo inovador. Segundo Dr. John Evans, deão da escolanaquele ano, o foco de preocupação do grupo de planejamentoque elaborou os estudos era "manter-se distante da estrutura dos moldesjá padronizados, nos quais os conteúdos eram empurrados goelaabaixo dos estudantes, o que eles não retêm de forma alguma,mas adotar um sistema no qual os estudantes sejam ativamente envolvidosno processo de aprendizagem" .  O resultado final foi o surgimentodo atual curso de Medicina da Universidade de McMaster, utilizando o programa"Problem-Based Learning", com as seguintes características:
-   ausênciade matérias caracterizadas como disciplinas;
- ênfase na soluçãode problemas;
- abordagem integrada dabiologia humana.

Os pontos-chave do programasão: análise de problemas de saúde como o métodoprincipal de adquirir e aplicar conhecimentos; desenvolvimento de habilidadesde auto-formação vitalícia e independente no estudante;e o uso de pequenos grupos tutoriais de estudos, com 5 ou 6 estudantes,como  núcleo educacional básico . A estrutura do currículoconsiste em uma série de Unidades ou Blocos [Módulos] interdisciplinares,compreendendo também um último ano de internato rotativoem clínicas. As habilidades clínicas, incluindo habilidadesde comunicação, são adquiridas paralela e integradamenteao longo do curso.
 

Aplicação doPBL na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) da SES-DF

Longum iter est per præcepta,breve et efficax per exempla
     ("Longo é o caminho da teoria, breve e eficaz o da prática")- SÊNECA

No Brasil, a nívelde graduação , as faculdades de Medicina de Londrina e Maríliaforam as pioneiras na aplicação do PBL à formaçãomédica, há 4 anos. As universidades de Santa Cruz (Bahia)e de Roraima estão em fase de implantação dessa metodologia,e a ESCS inicia seu curso médico já centrado no PBL. Foramas essas escolas que inspiraram e assessoraram a introduçãodo PBL na ESCS. Como ocorre nesses programas, o currículo do cursonão está fatiado em disciplinas nem é engessado. Eleé considerado como um conjunto teórico-prático dinâmico,constituído de módulos inter-relacionados que se integrame se adaptam viva e continuamente conforme será mostrado.
Em setembro de 2001 teminício o Curso de Medicina da Escola Superior de Ciênciasda Saúde (ESCS) da SES-DF (Secretaria de Saúde do Governodo Distrito Federal). "O planejamento ocorreu em três fases. A primeiracentrou-se em uma articulação da filosofia educacional daescola e uma clara definição da filosofia determinante detodas as decisões curriculares. Neste momento foram adotadas asseguintes etapas: a) identificação de competênciasexigidas ao graduado; b) o estabelecimento de convênios institucionais­ com instituições que desenvolvem programas educacionaissimilares; c) seleção e criação de meios detreinamento; e d) seleção e capacitação dosmembros da Escola. A segunda fase consiste em articular as experiênciasde aprendizagem nas três estratégias que se sobrepõem:aprendizagem baseada em problemas, as habilidades e a interaçãoensino-serviços-comunidade. A fase final, que é tambémcoerente com a filosofia da escola, é a da correçãodos rumos do curso através de um sistema de avaliação.O currículo é  visto como um processo dinâmicoque permite ajustamento contínuo".

 O novo curso adotaum currículo caracterizado por metodologia de ensino fundamentalmentecentrada no estudante, baseada em problemas e orientada à comunidade,com ênfase na integração básico-clínica.Pretende-se a formação de profissionais que não privilegiema doença, mas o doente, capazes de atuar na soluçãode problemas de saúde mais relevantes da comunidade, e que estejamcomprometidos, ademais, com a promoção e recuperaçãoda saúde e prevenção da doença com base emprincípios éticos, humanísticos e sociais . Isso querdizer que esta escola adota o PBL (Problem Based Learning) como metodologiade ensino-aprendizado. Conforme ocorre também em outras escolas,o programa consiste em "uma metodologia ativa de ensino-aprendizagem naqual o estudante explora problemas educacionais trabalhando em pequenosgrupos" .  Embora essa metodologia não seja uma invençãoparticular da ESCS, está claro, segue ela, entretanto, caminhospróprios.

Mudança de paradigma:em andamento

 Para exemplificar aestrutura e dinâmica desse novo paradigma, irei descrever algunsaspectos de seu desenrolar. Grande parte do material a seguir foi apresentadapelos consultores na UEL e da FAMEMA nas conferências de capacitaçãodos docentes da ESCS-DF, no primeiro semestre de 2001. Outra parte decorreudo esforço dos docentes da ESCS em aplicar a nova abordagem ao novocurso do DF.
 Dois aspectos a seremnotados no desenrolar desse programa, em comparação com osprogramas tradicionais: a ênfase nas mudanças de foco na práticamédica e nas mudanças de foco no ensino médico. Nesteprimeiro quadro, na coluna da esquerda estão os itens que sãovalorizados na prática da educação médica tradicional.Na coluna da esquerda, em itálico, estão os itens para osquais são deslocados os novos enfoques formativos

 Mudanças defoco na prática

DO INDIVÍDUO PARAA COMUNIDADE
Da cura da doençaPara a preservação da saúde
Do cuidado episódicoPara o contínuo e compreensivo
Da abordagem individualpor um único médico Para a abordagem multiprofissional nacomunidade
Do paternalismo Para a autonomiado paciente
Do sistema centralizadohospitalar Para o enfoque do cuidado primário
Do cuidado ao paciente internadoPara o cuidado distribuído (casa, hospital-dia e cuidados intermediários
Do caso anedóticoPara a medicina baseada em evidências
Do médico como únicodono do saber Para a informação universalizada e democrática

No quadro abaixo éfeita a comparação entre a mudança de foco no ensinomédico, o tradicional (na coluna da esquerda) e o que estásendo proposto (na coluna da direita, em itálico).

Mudanças de foco noensino médico

Do indivíduo Paraa comunidade
Da cura da doençaPara a preservação da saúde
Do cuidado episódicoPara o contínuo e compreensivo
Da abordagem individualpor um único médico Para a abordagem multiprofissional nacomunidade
Do paternalismo Para a autonomiado aluno
Do sistema centralizadohospitalar Para o enfoque do cuidado primário
Do cuidado ao paciente internadoPara o cuidado distribuído (casa, hospital dia e cuidados intermediários
Do caso anedóticoPara a medicina baseada em evidências
Do professor como únicodono do saber Para a informação universalizada e democrática(internet)
 

O primeiro módulodo curso de Medicina da ESCS  ­ Introdução ao Estudoda Medicina ­ apresenta os seguintes objetivos:  1) acolher osestudantes no ambiente da escola; 2) apresentar o Curso de Medicina daESCS: metodologia de ensino-aprendizagem, semana-padrão, sistemade avaliação, organização curricular; 3) apresentaraspectos relevantes da história da Medicina e da educaçãomédica; 4) propiciar elementos introdutórios para o conhecimentodos princípios éticos que regem a prática da medicina;5) capacitar os estudantes para a utilização de ferramentasbásicas de informática em saúde;6) sensibilizar osestudantes para a necessidade de desenvolver a capacidade de avaliaçãocrítica das informações científicas veiculadaspor revistas médicas e introduzir noções fundamentaisde delineamentos de estudos. As metodologias educacionais incluem a aprendizagembaseada em problemas, palestras e atividades práticas que envolvemcapacitação para a adequada utilização da Biblioteca,bem como para o acesso a informações por meio das bases locaise remotas (INTERNET) e treinamento básico em informática.
O sistema de avaliaçãoé dirigido às atividades discentes e docentes, àsunidades educacionais e aos estágios, ou seja, a todas as etapase atores do processo educacional. Este se baseia nos seguintes princípios:1. Os métodos de avaliação devem ser coerentes e integradoscom os princípios gerais do currículo, 2. A avaliaçãodeve ser sistemática, cooperativa, construtiva e democratizada,3. As informações para a avaliação devem serprovenientes de várias fontes, 4. O desempenho do docente éavaliado pelos estudantes junto a cada unidade educacional ou estágio.As unidades educacionais e estágios são avaliados tanto porestudantes como por docentes ao final destas atividades.
 
PRINCÍPIOS DO PBL
 

Tutoriais:

Tutoriais são seçõesde trabalho em grupo nas quais estão reunidos 8 estudantes com umtutor e um co-tutor. Durante os tutoriais discutem-se problemas, que sãoproposições do grupo de planejamento curricular para estimularo estudo de alguns tópicos integrados (interdisciplinares), favorecendoo ganho de conhecimento em áreas específicas do currículo.Para a solução dos problemas propostos, evocam-se os conhecimentosprévios que os alunos tenham sobre um assunto e procura-se promovera incorporação de novos conhecimentos. Estimular o trabalhoem grupo, o desenvolvimento de habilidades de comunicaçãoe liderança e de responsabilidade para com os outros é tambémfunção dos tutoriais.
O tutor é um facilitadorde aprendizado. Ele não é um professor-expositor, nãoestá ali para ensinar, mas para instigar, incentivar, estimularo esforço coletivo do grupo para avançar na compreensãodos problemas propostos.
Para o desenvolvimento dotrabalho tutorial é necessário um treinamento básicodos docentes tutores, uma compreensão da dinâmica do tutoriale de como essa dinâmica favorece o processo de aprendizado.
Um problema é umasituação clínica a partir da qual um conjunto de objetivosde aprendizado a serem atingidos se definem. Ele pode ser um enunciadoque contenha a descrição de um fenômeno que requeiraexplicações, um caso clínico preparado para este fim,uma situação de laboratório ou outra.
O que é importanteé que o problema desencadeie uma série de atividades cujoresultado seja a motivação do estudante para estudar temasrelacionados ao problema, de modo a atingir os objetivos de aprendizadopropostos.
A dinâmica do tutorialé tal que sempre deve haver duas partes: na primeira se terminaa discussão de um problema iniciado no tutorial anterior; na segundase examina um novo problema.
 
 

 COMPARAÇÃOENTRE OS 7 PASSOS DE 4 ESCOLAS MÉDICAS

Universidade de Maastricht
HOLANDA  UniversidadeEstadual de Londrina-PR
 (UEL) Faculdade deMedicina de Marília-SP (FAMEMA) Escola Superior de Ciênciasda Saúde-DF
(FEPECS)
1. Esclarecer termos e expressõesno texto do problema.
 1. Esclarecer termose conceitos desconhecidos 1. Ler e compreender 1. Ler atentamente os problemase esclarecer os termos desconhecidos.
2. Definir o problema. 2.Definir o problema (formular questões) 2. Encontrar as questõesa serem resolvidas 2. Identificar no proble-ma as questões de apren-dizagemconsideradas relevantes pelo grupo.
3. Analisar o problema.3. Analisar o problema baseado em conhecimentos prévios (levantarhipóteses) 3. Tentar respondê-las com o que se sabe (discussão)3. Oferecer explicações para estas qauestões com baseno conhecimento prévio que o grupo tem sobre o assunto (for-mulaçãode hipóteses).
4. Sistematizar análisee hipóteses de explicação, ou soluçãodo problema. 4. Resumir as conclusões 4. Resumir o discutido 4.Resumir estas explicações.
5. Formular objetivos deaprendizagem. 5. Formular objetivos de estudo 5. Propor o que estudar 5.estabelecer objetivos de aprendizagem que levem o aluno à compro-vação ou não, ao apro-fundamento e à comple-mentaçãodas explica-ções.
6. Identificar fontes deinformação e adquirir novos conhecimentos individualmente.6. Auto-aprendizado 6. Estudar 6. Estudo individual respeitando os objetivosestabelecidos.
7. Sintetizar conhecimentose revisar hipóteses iniciais para o problema. 7. Dividir conhecimentoscom o grupo 7. Rediscutir o estudado 7. Rediscussão no grupo tutorialdos avanços de conhecimento obtidos pelo grupo.

 A partir da segundaseção, inicia-se o tutorial pelo passo 7 do problema anterior,após o que passa-se aos 5 primeiros passos do próximo problema.Sugere-se que cada parte do tutorial não deve durar mais que umahora, com tolerância de meia hora para cada parte. Em decorrência,um problema deve ser de tal tamanho ou complexidade que possa ser trabalhadoem duas seções de 1 hora cada, no máximo em 3 horasno total.
Entre um tutorial e outrodeve se passar pelo menos 48 horas, durante as quais os alunos tenham pelomenos de 12 a 16 horas para estudar.

Auto estudo
 A auto-formação(aprender a aprender) é a lei suprema do aprendizado baseado emproblemas. O estudo pode ser individual ou em pequenos grupos e o alunodeve ter prazer em estudar, da forma como se sentir mais confortávele que lhe trouxer melhor rendimento. Para tanto, o programa curriculardeve prever tempo suficiente para o auto-estudo, sem sufocar o estudantecom múltiplas atividades (o chamado "horário protegido").
 Conferência

Conferências, aulas,práticas, mesas redondas, simpósios e similares sãoexposições teóricas uni ou multiprofissionais e sãointeressantes para: a) introduzir o aluno em uma nova área do conhecimentoda qual não detenha conhecimentos prévios ou para b) resumire ordenar uma área de conhecimento que os alunos tenham estudado,mas cuja complexidade possa ser esclarecida por alguma forma de exposiçãodidática por um ou mais especialistas. Devem ser concebidas comoferramentas de auxílio aos tutoriais, nunca como métodoscentrais de ensino. Os docentes não devem sucumbir à tentaçãode aumentar o conteúdo através de conferências exaustivasnem de cobrir todo o conteúdo com práticas auto previsíveis.Em um programa PBL, as conferências devem ser limitadas àsessências, ao que é importante e fundamental para que um determinadoconteúdo ou tema seja adequadamente compreendido pelos alunos, especialmentequando esses conteúdos ou temas forem muito abrangentes ou muitocomplexos ou muito áridos para o auto-aprendizado.
 

Especialista

Especialistas servem paraplanejar o currículo e as avaliações e para oferecer"consultoria" para os alunos, isto é, para estarem disponíveispara que os alunos possam consultá-los a propósito de dúvidasque tenham emergido de seus estudos individuais e outras formas de aprendizado.
Além disso, os especialistaspodem ser tutores, instrutores, assessores etc..

Recursos Didáticos

Recursos didáticosconstituem toda a gama de elementos que os alunos possam dispor para fazeravançar seu aprendizado: biblioteca, programas de computador, Internet,modelos e peças anatômicas, laboratórios variados,vídeos, slides, demonstrações, equipamentos médicos(ECG, USG, Radioscopia, etc).
Os recursos didáticospodem estar disponíveis para o manuseio dos alunos e para demonstraçõespor docentes.

Hospitais, Centros de saúde,Laboratórios, outros recursos de saúde

Os alunos devem ter a oportunidadede praticar o que aprenderam onde quer que a medicina seja praticada enão só no ambiente hospitalar, como se fosse um internatoclássico. Devem entender o relacionamento e a complexidade dos váriosrecursos disponíveis para a promoção e para o tratamentoda saúde da população e suas inter-relações.A inserção dos alunos nessas facilidades deve ser a maiscedo possível.
O Currículo

A organizaçãocurricular da ESCS prevê 6 anos de estudos para a gradução,distribuídos assim: 4 anos de formação teórico-práticae 2 anos de internato. O currículo dos 4 anos de formaçãoteórico-prática está estruturado em:
* unidades educacionaisverticais, os Módulos Temáticos, que duram de 4 a 7 semanas;
* unidades educacionaishorizontais, que são duas e duram todo o ano letivo:  Habilidadese Atitudes (HAI, II, III e IV) e Interação Ensino-Serviços-Comunidade(IESC I, II, III e IV);
* módulos eletivos(Atualização I, II, III e IV), que são módulosde escolha individual de cada estudante, para personalizaçãode seu currículo. Estes têm duração de 2 a 4semanas, e permitem que o estudante escolha entre um leque de opçõesque lhe são ofertadas dentro do currículo médico.
O que se chama aqui de módulotemático não é o mesmo que disciplina, no sentidodo currículo tradicional. Todavia, esses módulos contêmassuntos comuns tratados em várias disciplinas, de forma integrada,envolvendo aspectos morfo-funcionais, patológicos, epidemiológicos,psicossociais e clínicos  do assunto estudado. Esses módulostemáticos são distribuídos em 38 semanas de estudosanuais. Durante estes 4 anos iniciais do curso, o domínio cognitivono currículo é trabalhado nas fases de 1 a 6 dos chamadospassos, enquanto que o domínio psicomotor é trabalhado noslaboratórios, nos ambulatórios, nas enfermarias, hos hospitaise em outros espaços operacionais onde as habilidades e atitudessejam factíveis.
 
 Os dois últimosanos do curso. Estes correspondem ao Internato Médico. Serácumprido em Hospitais e Ambulatórios da Rede de Saúde daSecretaria de Saúde do Distrito Federal. Será realizado emforma de rodízio nas grandes áreas clínicas, comopediatria, gineco-obstetrícia, clínica médica, clínicacirúrgica e psiquiatria. A escola tem afirmado que as diretrizesnorteadoras do currículo obedecem à seqüêncialógica do ciclo vital, da ecologia humana e da formaçãogeral do médico.

Habilidades
O desenvolvimento das habilidadesnecessárias à prática profissional é de talforma importante que as habilidades recebem um tratamento diferenciadono currículo. Devem ser integradas aos módulos e tutoriaisao máximo possível, mas inevitavelmente alguns temas nãoencontrarão integração adequada ou não poderãoser ofertados no momento adequado.
Desta forma as habilidadesdevem merecer um planejamento à parte, de modo a garantir que todosos alunos tenham tido a oportunidade de praticar aquelas consideradas fundamentaisantes de se formar.
Constituem habilidades acapacidade de se comunicar com os pacientes e com seus pares, a capacidadede desenvolver uma anamnese e um exame físico, de formular hipótesesdiagnósticas e de prescrever, de realizar procedimentos necessáriosà prática médica tais como: colher sangue, passaruma sonda uretral ou nasogástrica, realizar uma punçãoliquórica, obter um eletrocardiograma, realizar um toque retal,avaliar a pressão arterial, avaliar o crescimento e o desenvolvimento,etc..
Enfim, tudo aquilo de naturezapsicomotora e que demande treinamento que o grupo de planejamento entenderser necessário à formação do médicopara aquela região geográfica e epidemiológica dopaís.
O treinamento de habilidadesmerece, no currículo PBL, tanta atenção quanto o desenvolvimentodos conhecimentos teóricos.
Deve-se garantir que osalunos aprendam corretamente as habilidades necessárias e dar aoportunidade de que eles demonstrem o aprendizado em avaliaçõesespecialmente designadas para tal fim.
A sequência de aprendizadode habilidades é: 1) treinamento em modelo de plástico _avaliação;2) treinamento inter-pares _- avaliação;3) treinamento empaciente consentido _- avaliação; 4) treinamento em pacientereal _- avaliação (avaliação permanente sempredeve ser perseguida como ideal para o aprendizado das habilidades).
 

 
EM CONCLUSÃO

Certamente muitos outrosaspectos do PBL poderiam ser abordados aqui (como o critério deavaliação, a semana padrão e outros). Entretanto,por se tratar de um artigo de síntese inicial, abordei somente algunsaspectos fundamentais, e também apresentei  algumas comparaçõese aspectos do esforço atual que está significando a implantaçãode uma escola médica que já adota desde seu primeiro diaa novel metodologia. Meu projeto é ter oportunidades outras de retomaresse tema, e de analisá-lo mais detidamente e sobre outros ângulos,em próximas publicações.
Na verdade, do que foi ditoaqui, já seria um avanço que se retivesse o seguinte:
O aprendizado baseado emproblemas é um conjunto de princípios pedagógicosorientado ao ensino de adultos, que privilegia:
* o auto-aprendizado (aprendizadoindependente)
* o estudo em pequenos grupos
* o conteúdo teóricocongruente com a prática futura
* o respeito ao conhecimentoprévio do estudante
* a interaçãointerpessoal intensiva
* o incentivo à auto-motivação

Na aplicaçãoprática do PBL, recorre-se  a uma multiplicidade de técnicasfacilitadoras da ação voltada ao aprendizado, que devem ser:dominadas por todo o corpo docente, integradas e integrativas e suficientespara transmitir os conhecimentos necessários e essenciais a um determinadoexercício profissional. Essas técnicas devem ser encaradascomo dinâmicas, variáveis, aperfeiçoáveis, mutáveis.Enfim, o aprendizado baseado em problemas é uma sistemáticade ensino privilegiadora de um processo de formação e não de um conteúdo curricular, ensina-se menos e melhorpara que o aluno possa aprender a aprender mais e melhor.
Finalmente, repensar a educaçãomédica implica, na medida em que as mudanças obtidas sejamrelevantes, em também repensar a universidade, pois seu imobilismopode ameaçar a sustentabilidade das próprias conquistas obtidas.
 

davigoncalves@medico-df.com.br.
 
 
 
 

 

 BIBLIOGRAFIA

1. William B.Spaulding: Revitalizing medical education. McMaster MedicalSchool. The early years 1965-1974. Hamilton: B.C. Decker Inc. 1991.
2. Kassebaum DG: Change in medical education: the courage and willto be different. Editorial. Academic Medicine 1989;64:446-447.
3. Anderson AS: ; Boud D, Feletti G, editors.The challenge of problembased learning. London: Kogan Page Limited, 1991; 7, Conversion to problem-basedlearning in 15 months. p. 72-79.
4. Muller S: Physicians for the twenty-first century. Report of theproject panel on the general professional education of the physician andcollege preparation for medicine. J Med Educ 1989;59((part 2)):1-31.
5. Neufeld VR, Woodward CA, MacLeod SM: The McMaster M.D. program:a case study of renewal in medical education. J Med Educ 1989;64:423-432.
6. Zhou T, Xi G, Wan S: A survey of medical education in McMaster University(in Chinese). China Higher Medical Education 1996;50(2):41-43.
7. Blake JM, Norman GR, Keane DR, Mueller CB, Cunnington J, Didyk N:Introducing progress testing in McMaster University's problem-based medicalcurriculum: psychometric properties and effect on learning. Acad Med 1996;71:1002-1007.
8. Kai-Kuen Leung, Wei-Dean Wang, Ching-Yu Chen, Bor-Shen Hsieh: Evaluationof medical education reform at National Taiwan University College of Medicine.J Med Education 1997;1:21-30.
9. Rylen E: Admission to Canadian medical schools 1994/95. Asso CanMed Coll Forum 1996;27:6-10.
10. Donald R.Woods: Problem-based learning: How to gain the most fromPBL. First ed. Waterdown, Ontario: Donald R. Woods; 1994.
11. Norman G: Problem-solving skills versus problem-based learning.Pedagogue. Program for Educational Development, Faculty of Health Sciences,McMaster University. 1989; 1-4. Hamilton.
12. Biggs JB, Watkins DA: Learning and teaching in Hong Kong: whatis and what might. be. Faculty of Education. The University of Hong Kong,Hong Kong. 1993.
13. Mamede S, Penaforte J, Schmidt H, Caprara A. Tomaz JB, SáH. Aprendizagem Baseada em Problemas ­ Anatomia de uma Nova AbordagemEducacional: HUCITEC 2001. Fortaleza.
14. Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências daSaúde (FEPECS) / Escola Superior de Ciências da Saúde(ESCS) ­Introdução ao Estudo de Medicina ­ Manualdo Tutor ­ Brasília-DF, 2002.
15. Almeida, Márcio José: Educação Médicae Saúde ­ Possibilidades de Mudança.Editora UEL/AssociaçãoBrasileira de Educação Médica. Londrina/Rio de Janeiro1999.
16.  Introdução ao Estudo da Medicina ­ Módulo101 ­ Manual do Tutor, FEPECS / ESCS ­ Brasília-DF, 2002.